As origens napolitanas de Romeu e Julieta

Publicado no jornal Diário da Região, São José do Rio Preto, SP, 09 de setembro de 2026.

Quando nasceu William Shakespeare (1564-1616), já havia decorrido mais de um século da perda, pelo Reino de Inglaterra, dos seus territórios na Normandia, após a batalha de Formigny, de 1450. Os Normandos haviam conquistado o trono inglês após a batalha de Hastings, em 1066, inaugurando algumas dinastias (Normanda, Plantageneta e Tudor) de origem total ou parcial francesa, as quais persistiram até 1603. Este relevante acontecimento geopolítico causou profundas modificações na Inglaterra, que buscava uma nova identidade nacional para, desgraçadamente, se afirmar como uma potência global, através da pirataria, do tráfico de escravos e depois do ópio.
Tal movimento iniciou-se com a adoção da língua inglesa como idioma nacional (sic) e a sua promoção léxica e gramatical, devido à pobreza de suas raízes vernaculares. De fato, até então, por mais de 5 séculos a língua oficial do país foi… a francesa. Por mais da metade daquele período, nenhum monarca inglês falou outro idioma, conforme meu livro ‘Relembrando o Português com Dicionário de Anglicismos’. Como o Old English, uma língua ágrafa, tinha apenas 4.500 léxicos, foi necessária a adaptação de numerosos vocábulos latinos, sendo Shakespeare responsável por aproximadamente 1.700, muitos deles falsos cognatos, devido ao seu parco conhecimento da língua de Cícero.

Assim, o início tardio da literatura inglesa buscou não apenas a informação semântica, mas também a inspiração temática, nos trabalhos precedentes de autores europeus. Isso ocorreu inclusive com o Bardo, a cujo respeito pouco se conhece, particularmente (mas não apenas) no tocante à sua educação. Sabe-se com certeza que foi precária pois, em 2 de suas obras (‘A Tempestade’ e ‘Os Dois Cavalheiros de Verona’), coloca Milão frente ao mar (sic). Observo que, a respeito, na edição de suas obras completas, pela Oxford University Press (1981), a introdução configura ensaio de especulação fantasiosa, mais próprio à ficção que à ciência. De fato, a construção da narrativa do pretenso gênio inglês, para provar a superioridade intelectual do país na justificativa dos fictícios méritos do imperialismo, persistente até hoje, faz com que muitas obras copiadas ou inspiradoras de trabalhos ingleses sejam atribuídas a pessoas desta nacionalidade. É verdadeiramente estarrecedor o número de invenções chinesas que foram autoproclamadas como britânicas. Como na historiografia geopolítica, os relatos fraudulentos ou omissões deliberadas predominam, segundo escreveu George Orwell.

A literatura não escapa a esta tendência. Mesmo as obras que inspiraram o trabalho meritório de Shakespeare são largamente ignoradas. O enredo da peça ‘Romeu e Julieta’, um clássico que já fazia sucesso mais de 100 anos antes de Shakespeare, foi de autoria do poeta napolitano Masuccio Salernitano (1410-1475), quem denominou os personagens como Mariotto e Giannozza. Posteriormente, tal enredo foi adaptado pelo escritor vêneto Luigi da Porto (1485-1525), renomeados os personagens como Romeu e Julieta. A novela fez tanto sucesso na Europa que foi traduzida para o inglês por Arthur Brooke, em 1562, quase meio século antes da adaptação de Shakespeare. Todavia, na historiografia literária inglesa, tipicamente, aparece apenas o nome Brooke como fonte do Bardo. O mesmo ocorre com ‘Othelo’, considerada uma de suas obras primas, e ‘Medida a Medida’, de 1565, baseadas no enredo de novelas do professor emiliano Giambattista Giraldi Cinthio, precedentemente traduzidas para o inglês.

DURVAL DE NORONHA GOYOS JR.
Advogado (BR/ING/PT) Escritor polígrafo. Ex-presidente da UBE. Da Academia de Letras de
Portugal. Ex-diretor do Sindicato dos Escritores de São Paulo. Escreve quinzenalmente neste
espaço às quartas-feiras