A poética de Mao Zedong

Publicado no jornal Diário da Região, São José do Rio Preto, SP, 23 de setembro de 2026.

Celebrou-se em 9.6.2026 a efeméride dos 50 anos de morte de Mao Zedong. É conhecido o seu papel político, como membro
originário do Partido Comunista Chinês (PCC), militar anti-imperialista e estadista fundador da República Popular da China, em
1.10.1949. Naquela ocasião, foi resgatada a dignidade do povo chinês e concebida uma nova dimensão à cooperação entre os
povos, quando ele enunciou o princípio de relações internacionais do país. Segundo suas palavras, “…nós agora entramos na
comunidade das nações amantes da paz. Trabalharemos com coragem e indústria para criar nossa própria civilização e
felicidade e, contemporaneamente, para promover a paz e a liberdade mundiais”. Contudo, ele foi também professor, jornalista
um poeta clássico de grande mérito literário, adaptando a lírica tradicional aos temas políticos.

Assim, na longa luta travada contra a opressão e o domínio imperialista estrangeiro e por seus agentes domésticos, o povo
chinês foi inspirado pelo PCC, mas também pela poética do grande guia. Durante 3 décadas, Mao redigiu mais de 70 poemas,
principalmente dando conta dos desenvolvimentos da guerra de libertação nacional, mas também na graciosa abordagem da
natureza, nas métricas e formatação de perspectiva clássica. Eles foram escritos pelo autor de maneira elegante e fluente, nos
traços refinados da milenar arte caligráfica chinesa, inspirados nos modelos das dinastias Tang (618-907) e Song (960-1279), co
delicadeza e sensibilidade artística.

Na perspectiva política, a poesia foi uma forma encontrada pelo bardo Mao Zedong de repercutir os notáveis feitos militares da
nação chinesa, numa época de precariedade nos meios de comunicação, adquirindo contornos épicos, com metáforas sob a
clara inspiração de poetas precedentes. Este é o caso, dentre muitos, do poema ‘Neve’, de 1944, em minha tradução livre:
“A paisagem do norte:
Vastidão sob o gelo,
Turbilhão de neves,
Em ambos os lados da Muralha,
Imensidão.
Para cima e para baixo do grande rio,
Torrentes congeladas.
Montanhas como serpentes de prata a dançar,
E as colinas, elefantes de cera a se arrastar,
Desafiando os céus nas suas alturas…
…Tal é a beleza destas montanhas e rios…”

Em “Celebrando a Vitória”, o poeta exala o sentimento de paz, em minha tradução livre:
“A brisa do vento fluía sobre o rio,
A planície encontrava o céu.
O festival portava a alegria:
A lua brilhava no flutuar das nuvens,
Os gansos não traziam notícias
De meu lar e família,
Olho para o alto sem cessar:
A cidade celebrava a vitória”.

Já no poema “Montanha arco-íris”, de 1955, o vate Mao Zedong, plácido e seráfico, admira a natureza pacífica, conforme minha
tradução livre:
“As nuvens voam por sobre a montanha,
Sobre picos distantes, para acariciar o lago.
Se perguntado sobre onde eu repousaria,
É aqui mesmo,
onde ouço o canto dos pássaros…”

Mao Zedong foi um dos raros estadistas mundiais tornado literato importante, como poeta, mas o único a sensibilizar toda uma
nação através de sua lírica. Por outro lado, o seu estilo de prosa era direto, claro e contundente, conforme evidenciado pelos
textos dos artigos, livros, lições e discursos, apropriados para efeitos políticos, como citado. Nestes trabalhos, a poesia
transforma-se numa análise crítica direta, lógica e racional, às vezes dura e jamais sentimental.

DURVAL DE NORONHA GOYOS JR.
Escritor polígrafo. Ex-presidente da UBE. Da Academia de Letras de Portugal. Autor do Dicionário de Mandarim e de outros 12
livros sobre a China. Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras