Elogio aos Professores Doutores João Carlos Kfouri Quartim de Moraes e Luiz Gonzaga Belluzzo

Texto básico proferido na Fundação Maurício Grabois no dia 11 de julho de 2026.

Pediu-me nosso presidente, o Dr. Walter Sorrentino, para fazer um breve elogio aos professores doutores João Carlos Kfouri Quartim de Moraes e Luiz Gonzaga Belluzzo, hoje merecidamente homenageados pela nossa Fundação Maurício Grabois. Isso é feito em reconhecimento pelas extraordinárias contribuições acadêmicas, sociais e políticas prestadas ao longo de suas respectivas vidas, as quais são pública e amplamente reconhecidas, bem como admiradas pela cidadania. De fato, são os homenageados figuras de escol no País, com muitos pontos em comum nas respectivas vidas.

O Professor João Carlos Kfouri Quartim de Moraes aliou uma intensa atividade política com uma consistente militância comunista e antifascista, a qual inclui a resistência armada à ditadura militar iniciada através do golpe de Estado de 1964. Ele teve, por outro lado, uma extraordinária carreira acadêmica como professor e filósofo marxista e é amplamente reconhecido como um dos grandes pensadores brasileiros. Sua vasta obra inclui os livros ‘A Esquerda Militar no Brasil’ e ‘A História do Marxismo no Brasil’, para além de muitos artigos publicados.

Em minha vida, tive o prazer de conhecer dezenas de membros da família Kfouri, alguns dos quais muito proximamente, e posso assegurar que todos eles são torcedores do Corinthians, esta força determinante do processo civilizatório brasileiro, pelo fundamento clássico do serviço ao povo. Disse-me uma ocasião o meu amigo Flávio La Selva, o fundador da torcida Gaviões da Fiel e de saudosa memória, nas arquibancadas do Pacaembu, no lado esquerdo do ingresso pelos portões monumentais, que o próprio camarada Mao Zedong teria se inspirado no Timão para a criação de seu lema: “servir ao povo”, criado em 1944, o que é em toda probabilidade uma verdade histórica.

Assim, perguntei ao meu amigo, o jornalista e escriba Juca Kfuri, notoriamente inspirado por São Jorge pela causa do Brasil e de seu povo, se o Professor Doutor João Carlos Kfouri Quartim de Moraes não professaria também a sacrossanta fé corinthiana, ao que ele me escreveu: “Sim. Não praticante, mas muito quando jovem”. Em resposta, eu respondi ao íntegro jornalista que “de todos os seus inúmeros predicados acadêmicos, este é certamente o maior, pela sua natureza civilizatória”. Respondeu-me o Juca Kfuri com um categórico “indubitavelmente” e a sua confirmação me levou a indagar intimamente, com certeza da resposta, se o extraordinário viés de serviço público do Professor Doutor João Carlos não teria tido a mesma origem daquela que teria impactado o grande guia chinês.

Quanto ao Professor Luiz Gonzaga Belluzzo, a história é assemelhada e me faz relembrar a figura de meu avô materno, o alfaiate napolitano Alberto Sabella, um sólido comunista e torcedor do Palmeiras, como também a minha mãe, meu irmão, meu tio e meus primos. Com a minha condição absolutamente minoritária, o meu irmão dizia em napolitano: “fratema è nu pècura nera”, ou “o meu irmão é uma ovelha negra”. Ergueu-se o meu avô em minha defesa e assegurou que a causa do povo é tão fundamental que ela tem necessariamente muitas casas, todas respeitáveis. Pela sua histórica contribuição à causa nacional e popular, o Professor Belluzzo optou por trabalhar na igualmente gloriosa agremiação verde e branca.

Em 2004, dez anos antes de minha presidência da entidade, a União Brasileira dos Escritores (UBE), concedeu o prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano, ao Professor Belluzzo pela sua notável produção acadêmica em geral e em particular por sua obra “Ensaios sobre o Capitalismo no Século 20”. Segundo Caio Prado Júnior, “o Juca Pato homenageia o homem de pensamento que não se encerra em uma torre de marfim… E sim aquele que procura se colocar a serviço da coletividade em que vive e da qual efetivamente participa”.

Naquela ocasião, o Prof. Belluzzo fez duras críticas ao neoliberalismo e ao capital internacional, afirmando que “a avareza é um vício, a usura, uma ofensa”, na presença de grandes nomes da intelectualidade brasileira, como Luiz Alberto Moniz Bandeira, Samuel Pinheiro Guimarães, Levi Bucalem Ferrari, Rosani Abu Adal, Cláudio Willer, Fábio Lucas, Toledo Machado, Sabato Magaldi, Antônio Rezk, Adriano Nogueira, Lygia Fagundes Telles, Djalma Allegro, Maria Maia, Caio Porfírio Carneiro, Ana Maria Martins, Izacyl Guimarães, Renata Pallotini, Milton Godói Campos, Rodolfo Konder, Yara Stein, J.B. Saeg, Regina Gadelha, Jorge da Cunha Lima e Walter Sorrentino.

Poucas vezes uma homenagem foi tão merecida como a de hoje. De minha parte, presenteio o Professor Doutor João Carlos com um exemplar de meu livro biográfico sobre Flávio La Selva e a Gaviões da Fiel, e ao Professor Doutor Belluzzo a minha obra sobre a imigração meridional italiana no Estado de São Paulo, na qual ele é citado. Muito obrigado a todas e todos os presentes.