Repercussões da baixa inflação registrada atualmente no Brasil

Publicado na versão eletrônica no sítio do JB On Line (http:\\www.jbonline.com.br), bem como na versão impressa no Jornal do Brasil, caderno Internacional, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 18 de junho de 2006.

SÃO PAULO – Conforme divulgado no fim de semana passado, até o final do mês de abril, o IPC-Fipe (Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) subiu 2,57% nos últimos 12 meses. Isso significa que a inflação brasileira está no mesmo patamar daquela da zona do Euro (2,5%) e inferior àquela dos últimos 12 meses nos Estados Unidos da América, 3,55%, conforme o índice do CPI (Consumer Price Index) deste país. Trata-se de mais uma importante conquista da administração do Presidente Lula.

De fato, juntamente com os grandes saldos na balança comercial, a melhoria dos indicadores sociais, a auto-suficiência em petróleo, a redução da dívida externa, a diminuição do risco Brasil e o aumento das reservas internacionais, a baixa inflação é mais um fator a aumentar a estabilidade econômica interna. De resto, fica igualmente alimentado o processo de crescente credibilidade institucional do País, o que favorece a atração de investimentos e o crescimento econômico.

Por outro lado, o baixo nível inflacionário no Brasil demonstra cabalmente o desacerto da política de juros administrada pelo Banco Central ( 15.17% a.a.) e, bem assim, a resultante taxa de câmbio que coloca o Real como uma das moedas mais valorizadas do mundo. De fato, se fizermos uma análise comparativa, veremos que, na China, para uma inflação de 1,2% ao ano, pratica-se uma taxa de juros de 2,30%.

Na Índia, para uma inflação de 5% ao ano, os juros são de 5,72%. Na Coréia do Sul, para uma inflação de 2,4% ao ano, portanto no mesmo patamar da brasileira, os juros são de 4,36%. Em nossa região, no Chile, para uma inflação de 3,7% ao ano, a taxa de juros situa-se em 5,04% ao ano. No México, para uma inflação de 3,2% ao ano, os juros estão em 7,01% para o mesmo período.

O exame comparativo acima indicado revela que o Brasil não somente pratica as maiores taxas de juros monitoradas pela revista Economist, mas também destoa grandemente da política cambial e de juros de outras grandes economias em desenvolvimento, como a da China e da Índia. Esse último país tem um saldo comercial negativo de aproximadamente US$ 40 bilhões, enquanto o Brasil tem um saldo positivo no mesmo valor.

Com uma política realista de juros (e, conseqüentemente, câmbio), as economias de China e Índia têm crescido muito mais do que o dobro do que a brasileira. Isso ocorre principalmente porque os investimentos produtivos são incentivados pela taxas menores de juros e, por outro lado, as exportações crescem por não serem penalizadas por um câmbio artificialmente elevado.

No Brasil, por muitos anos, governos sucessivos têm lamentavelmente acreditado que um mecanismo de valorização artificial da moeda brasileira, ao incentivar e assim baratear as importações, diminui os preços e combate a inflação, dispensando uma política eficiente e racional da administração pública, que de outra forma seria necessária.

Trata-se de um raciocínio tanto falacioso quanto oneroso, porque corrompe a verdadeira função do Estado, que é a de promover o desenvolvimento econômico e social do povo brasileiro, dentro do estado de Direito. O câmbio barato não substitui a administração pública eficiente! De mais a mais, tal postura sujeita o país a uma situação de estagnação econômica relativa e a um fenômeno de volatilidade de picos e vales em seu desempenho histórico.

Assim, é mais do que chegado o momento para a administração do Presidente Lula abolir os sofismas econômicos, ajustando as taxas de juros aos patamares praticados internacionalmente e assim nivelando o câmbio a um patamar realista, de maneira a permitir uma saudável expansão econômica no Brasil. O governo já demonstrou ter competência. Terá coragem?