O Irã defende-se

Publicado no jornal Diário da Região, São José do Rio Preto, SP, 25 de março de 2026.

A Primeira Guerra Mundial foi um conflito iniciado em 1914 entre as potências imperialistas do
início do século 20, contrapondo de um lado a Inglaterra, a França e a Itália em oposição à
Alemanha, a Áustria, a Rússia e a Turquia. Posteriormente, os EUA ingressaram no confronto
ao lado dos ingleses e franceses, estes motivados por conquistas adicionais visando o domínio
das fontes de petróleo, combustível que passara a ser utilizado pelas marinhas de guerra.
Prevaleceu, em 1918, a força das armas das potências ocidentais, com a assinatura do Tratado
de Versalles de 1919.

O balanço humanitário do conflito foi dramático, com cerca de 22 milhões de mortos e 18
milhões de feridos. Politicamente, o desastre trazido por Versalles foi ainda maior, porque
permitiu a desalmada dominação do Oriente Médio pelas potências ocidentais e ainda a
germinação da Segunda Guerra Mundial, outra grande tragédia, como anteviu John Maynard
Keynes, da Universidade de Cambridge. De fato, advertiu o formidável professor, “nem sempre
as pessoas aceitam morrer de fome em silêncio…”

Foi então institucionalizado o colonialismo ocidental no Oriente Médio, com o afastamento da
Turquia e a exploração do petróleo pelas empresas inglesas, francesas e, subsidiariamente,
pelas americanas e italianas. Embora não fizesse parte do Império Otomano, tendo a ele
sempre se oposto e mantido sua independência, o Irã caiu sob a sinistra influência inglesa. Os
ingleses ali instalaram um governo títere em 1925. Emergiu a resistência nacional iraniana em
1949 e foi nacionalizado o setor petrolífero em 1953. Neste período, os EUA já haviam
assumido a maior parte do legado imperialista britânico, mundo afora, assumindo uma
hegemonia que persiste até o presente.

Data daquela época a luta pela soberania do Irã contra as forças imperialistas ocidentais
agressoras lideradas pelos EUA, num embate que já dura cerca de 100 anos. A partir de 1949, a
ação imperialista adotou uma nova feitura com a criação do Estado de Israel, um projeto de
colonização sionista por elementos exógenos, grandemente financiado por fontes
estadunidenses, de maneira a assegurar uma presença sub-rogada na região. Foi vista como
conveniente pelos estrategistas americanos a destruição do substrato soberano das nações do
Oriente Médio e a sua substituição por Israel, um Estado cliente, bem como o controle
regional, mediante a guerra, o caos, a corrupção, e as violações dos direitos humanos.

A recente guerra, absolutamente ilegal face ao regime do Direito internacional, insere-se
dentro do quadro acima descrito. Defende-se heroicamente a nação iraniana. A guerra de
agressão não é um produto isolado ou aleatório das ações criminosas dos tresloucados
governos Trump e Netanyahu, as quais representam paroxismos da barbárie, da crueldade e
da desumanidade. Ao contrário, todas as administrações estadunidenses nos últimos 100 anos
procuraram manter o jugo regional, não obstante a frustrada camuflagem da folha de figo da
propaganda. Para tanto, os EUA cercaram a região com suas bases militares, as quais
compõem parte expressiva das 800 que mantém mundo afora, em 80 países. Note-se que
mesmo procedimento está a ser implementado na América do Sul, questão que deve ser
objeto de séria consideração pelo governo do Brasil.

DURVAL DE NORONHA GOYOS JR.
Advogado (Brasil, Inglaterra e Portugal). Jurista. Professor de Direito Internacional.
Historiador. Foi diplomata. Escritor polígrafo.. Escreve quinzenalmente neste espaço às
quartas-feiras