Publicado no jornal Diário da Região, São José do Rio Preto, SP, 06 de maio de 2026.
O extraordinário advogado humanista, Nelson Mandela, foi um dos maiores estadistas
mundiais, e referência política para os povos oprimidos da África como também do Sul Global.
Estive com ele pessoalmente em 1994 e em 1996, na África do Sul, dois anos após a
democratização do país. Eu havia trabalhado como consultor jurídico do Congresso Nacional
Africano, durante a oposição ao regime criminoso do apartheid, apoiado pelas opressoras
forças imperialistas dos EUA, do Reino Unido e Israel. Observo aqui, como justiça histórica, que
a ajuda militar e humanitária da República de Cuba foi decisiva na democratização da África
do Sul e de outros países africanos. O meu contato na ocasião foi Thabo Mbeki, vicepresidente de Mandela e,
em seguida, presidente do país, quem se tornou meu amigo.
Mandela deixou um legado riquíssimo de valores humanísticos a promover a paz, a justiça
social, a liberdade, a tolerância, a cooperação, a benevolência, a compaixão, o respeito ao
próximo, a busca do conhecimento e a autodeterminação dos povos, dentre outros. Ele não
buscou tais valores no Ocidente, mas sim no próprio continente africano, os quais lhe foram
inculcados pela filosofia ancestral milenar dos povos da África subsaariana, denominada
Ubuntu. Esses foram impulsionados pela tradição oral e pela organização social comunitária
daquelas nações. O princípio ético básico da filosofia Ubuntu é a divisa “eu sou, porque nós
somos”. O Ubuntu existe quando as pessoas se unem a promover o bem comum promovendo
a dignidade, que porta a paz.
Como estadista, e como presidente da República, Nelson Mandela promoveu os valores da
filosofia Ubuntu, encontrados em muitas nações africanas. Esses foram fundamentais na
retomada do processo civilizatório interrompido pelo imperialismo europeu, para o
empoderamento do povo numa verdadeira democracia com desenvolvimento econômico,
político e social. Ao invés de buscar a vingança contra os algozes de seu povo e seus
encarceradores, Mandela promoveu a benevolência, a tolerância e a cooperação para o
benefício comum. Assim, a filosofia Ubuntu, sob a liderança de Albie Sachs, passou a inspirar
os princípios básicos da Constituição de 1996, quais sejam a dignidade humana, a igualdade e
a não-discriminação.
Estes princípios compõem o credo de Mandela e se opõem ao individualismo, ao egoísmo, à
exploração humana, às guerras imperialistas e ao exercício arbitrário das próprias razões
prevalecentes no Ocidente, os quais são empregados ainda hoje. O seu uso trouxe a paz para a
África do Sul, com a reconciliação nacional, um difícil processo face às circunstâncias, mas que
se provou factível. Mandela trouxe os valores da filosofia Ubuntu para o cenário das relações
internacionais, os quais logo se incorporaram ao ideário do Sul Global, à busca de um mundo
que seja justo e fundado no Direito.
Do ponto de vista espiritual, o Arcebispo Desmond Tutu também procurou promover a
filosofia Ubuntu: “não se pode existir como ser humano em isolamento”, disse ele,
complementando: “eu sou porque eu pertenço, eu participo, eu partilho”. Ele acreditava que a
opressão agride o opressor espiritualmente, da mesma forma que o faz física e
emocionalmente ao oprimido. Hoje, os nobres valores da filosofia dos povos ancestrais da
África integram o ideário dos países do Sul Global, com outros assemelhados, da mesma
origem. Eles poderão transformar o mundo.
DURVAL DE NORONHA GOYOS JR.
Jurista. Autor de “O Regime Internacional dos Direitos Humanos e o Sul Global”. Escreve
quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras