Publicado no Portal Grabois, 03 de julho de 2026, Brasil.
Em memória à Moniz Bandeira.
Dá-se no 4 de julho de 2026 a efeméride dos 250 anos da independência dos Estados Unidos da América (EUA), uma triste data histórica. Desde 1776, o país empreendeu uma rapace e ininterrupta trilha de opressão, tirania e miséria, a começar pelo genocídio das populações nativas, que numeravam cerca de 3,2 milhões de pessoas, sem algum direito. Eram cerca de 2,5 milhões de habitantes de outras origens, dos quais 600 mil eram escravos negros e 300 mil, servos. Note-se ainda que também 1 milhão de mulheres não tinham direitos civis, bem como os devedores, analfabetos e presidiários, o que reduzia o número de adultos livres a 400 mil. Uma guerra de conquista dirigida por um regime plutocrático, ditatorial e escravocrata contra as populações indígenas reduziu em algumas décadas o seu número para cerca de 320 mil.
Esta campanha iniciou-se em 1781, a partir dos Apalaches, contra as tribos habitantes da região e prosseguiu ao sul, em oposição àquelas habitantes da Louisiana, em 1803, e as radicadas na Florida, em 1810. De 1812 a 1815, houve uma guerra com a Inglaterra, a respeito de pretensões territoriais estadunidenses ao norte. Em seguimento à sua marcha para o oeste, a partir de 1811, e ao consequente genocídio das populações indígenas, os EUA encetaram uma guerra de conquista territorial contra o México, em 1853, ao cabo da qual este país perdeu 55% de sua área nacional. Hoje, da região contínua dos EUA, nada menos que 33% foram tomados ao México, inclusive os territórios correspondentes à Califórnia, Colorado, Texas, Arizona, Oregon, Nevada, Novo México, Utah e Wyoming.
Da expansão territorial à projeção imperial
Antes da guerra contra a Inglaterra, os EUA juntamente com este país, em 1805, envolveram-se no tráfico de ópio para a China, produzido por seus agentes na Turquia. Esta atividade já era considerada um crime há mais de um século, mas foi para os EUA a principal de seu comércio exterior e a fonte inicial de sua prosperidade nacional. As ferrovias estadunidenses foram criadas com os lucros do tráfico de ópio e até mesmo universidades, como Princeton e Harvard, foram beneficiárias. O tráfico de ópio pelos EUA durou por mais de cem anos, tendo sido substituído noutras regiões por substâncias diversas, como a cocaína!
Diante da natural reação dos chineses, os EUA, com seus sócios imperialistas, envolveram-se nas chamadas Guerras do Ópio (1839-1842 e 1856-1860), com 90 milhões de vítimas estimadas. Após a China, os EUA encetaram uma campanha militar contra o Japão (1852-1855). A cultura do espírito belicoso prevalente levou à Guerra Civil americana (1861-1865) com 1,5 milhão de vítimas. Seguiu-se a guerra contra a Espanha, a partir de 1898, para a conquista das Filipinas, Marianas, Porto Rico, Cuba e de outros protetorados. Após 1917, o país enviou forças militares (derrotadas) para combater na guerra civil russa, contra os bolcheviques. Em 1903, criaram artificialmente em Wall Street (sic) o Panamá, em território ilegalmente desmembrado da Colômbia.
Na América Latina, os EUA intervieram desde o século 19, ação que mantêm desgraçadamente até os dias atuais. Foi assim, repetidamente, na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, El Salvador, Equador, Granada, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. Ademais, em 1946 criaram a Escola das Américas no Panamá para formar ditadores e ministrar métodos de tortura e inspiraram a tétrica Operação Condor, formalizada em 1975, que deixou um rastro de 3 milhões de mortos em 10 países sul-americanos. Um trágico e ilegal bloqueio econômico contra Cuba persiste há mais de 6 décadas.
Em África, para além das ações militares no Mediterrâneo em defesa do tráfico de ópio no século 19, os EUA patrocinaram ao menos 12 golpes de Estado a partir de meados do século 20 e assassinaram, direta ou indiretamente, mais de uma dezena de líderes, inclusive Patrice Lumumba, Kwame Nkrumah e Muammar al-Gaddafi. Ademais, o regime estadunidense foi o principal sustentáculo internacional do abominável regime racista do apartheid, na África do Sul, e do cruel império colonial português até meados da década de 1970. Com a 2ª Guerra Mundial já decidida, os EUA lançaram duas bombas atômicas contra as populações civis japonesas, causando um número superior a 300 mil vítimas fatais, mais um crime pelo qual jamais responderam.
Um levantamento bastante incompleto feito pelo historiador estadunidense, Lindsey Rourke, elencou pelo menos 56 ações secretas de desestabilização de terceiros países durante a Guerra Fria (1947-1989), excluindo-se as ostensivas. No período subsequente de mais de 3 décadas, e até os presentes dias, o número das novas ações secretas encontra-se na casa das muitas dezenas, muitas das quais concomitantemente e no continente latino-americano, como também em África, na Ásia e até mesmo na Europa.
Neste último continente, foram apoiadas as ditaduras em Portugal, com devastadoras consequências domésticas e em África; na Espanha, com sacrifício da democracia e agudo sofrimento do povo espanhol; na Grécia, com uma opressiva ditadura; e na Itália, na interferência na ordem democrática e no assassinato do primeiro-ministro Aldo Moro. Neste último país, foi utilizada pelos EUA a guerra biológica e a fome para submeter a infeliz população napolitana, autoliberada do jugo nazista. Em 1974, durante as administrações Nixon e Ford, os EUA completaram a catastrófica e vergonhosa marca de 200 anos de tráfico internacional de drogas, conforme revelado no judiciário do próprio país durante o caso Iran-Contras (cocaína).
Dos 248 conflitos armados havidos no mundo entre 1945 e 2001, nada menos do que 201 foram iniciados pelos EUA. Na Ásia, foram bombardeadas as populações civis com napalm, no Vietnã, Laos, Coreia e Camboja. Na Coreia, campos de refugiados foram bombardeados e se cogitou do emprego de armas nucleares. No Japão, mulheres foram forçadas ao trabalho sexual escravo pelas autoridades de ocupação estadunidenses. Nas Filipinas, foi erradicada a cultura local para maior facilitação da implantação da ordem neocolonialista. Na Indonésia, os EUA promoveram golpes de Estado e levaram ao poder cruéis ditadores favoráveis aos desígnios da potência neocolonial.
Os EUA e a ordem jurídica internacional
Por outro lado, os EUA sempre entenderam a ordem jurídica internacional como um obstáculo às suas pretensões de hegemonia imperial mundial. Foi assim com a Liga das Nações à qual nunca aderiram, apesar de ter sido iniciativa conjunta também de um presidente estadunidense, por contrariar seus planos de dominação mundial. Para os EUA, o principal objetivo da criação da ONU em 1945 não foi a criação de uma ordem jurídica internacional autônoma e superior, mas sim liquidar com o imperialismo britânico, que era um obstáculo para a sua própria dominação. A criação de Israel, um Estado cliente dos EUA, em 1948, deu ensejo à prática de crimes humanitários diversos, inclusive aquele de genocídio, com sua flagrante cumplicidade, bem como à completa desestabilização da região.
Em conjunto com os seus aliados, Estados clientes, os EUA dominaram e dirigiram no interesse próprio os organismos multilaterais como o Banco Mundial; a Organização Mundial do Comércio (OMC); o Fundo Monetário Internacional (FMI), dentre outros. Tais organismos promoveram a prosperidade seletiva dos países neocolonialistas em geral, mas particularmente a dos EUA, em detrimento da vasta maioria da população mundial, deliberadamente impedida de atingir o seu potencial.
Pretendiam os EUA a criação de uma ordem neocolonial, em que estivessem como dominadores no ápice da estrutura internacional. Conforme escreveu Kwame N’Krumah, “a essência do neocolonialismo é de que o Estado a que ele está sujeito é, teoricamente, independente e tem todos os adornos exteriores da soberania internacional. Na realidade, seu sistema econômico e portanto, seu sistema político, é dirigido do exterior… Um Estado nas garras do neocolonialismo não é senhor do próprio destino”. Esta doutrina está em vigor até hoje, de maneira extremada, com repetidas violações da ordem jurídica internacional.
O quadro é agravado pelo fato de que os EUA não assinaram ou não ratificaram, dentre outros, a Convenção dos Direitos da Criança; a Convenção sobre o Genocídio; o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris, sobre o meio ambiente; o Tratado de Banimento de Testes Nucleares; a Convenção de Viena sobre a Lei dos Tratados; a Convenção sobre Armas Químicas; os Estatutos da Corte Internacional de Justiça; o Acordo Nuclear com o Irã; o Tratado de Tlatelolco, sobre a questão nuclear na América Latina; e o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Em 2025, os EUA se retiram da Organização Mundial da Saúde.
No Brasil, as ações desestabilizadoras dos EUA se iniciaram já no Império, tendo se envolvido em quase todas as sublevações, como a Sabinada (1837), a Cabanagem (1835), a Balaiada (1838), a Farroupilha (1835). Estas ações ganharam mais corpo após a Proclamação da República, entre 1891 e 1894, quando a armada estadunidense ocupou portos brasileiros e interveio diretamente em apoio ao governo golpista republicano. Também em 1945 houve interferência na derrubada do presidente Getúlio Vargas; em 1964, com o golpe de Estado contra Jango Goulart, o qual instalou um regime militar que durou até 1985; e novamente em 2016, com a deposição fraudulenta de Dilma Rousseff.
Presentemente, durante a campanha de mudança de governos latino-americanos encetada contra a lei e em benefício neocolonialista próprio, os EUA colocaram o Brasil como um alvo prioritário, tendo em vista as eleições de 2026. O mesmo roteiro foi seguido no passado recente em todo o mundo, inclusive na Federação Russa e na Ucrânia. A longa, consistente e assustadora história de rapacidade, tirania, opressão e miséria dos EUA nos serve como um veemente alerta e como guia para a soberana tomada de decisões, enquanto temos condições.
Para o momento, devemos nos deparar com todos os tipos de pressões, ameaças, corrupção e mesmo com o auxílio tresloucado de certos setores da economia e da política brasileira. A luta da nação brasileira será pela soberania nacional, pelo bem-estar do povo, pelos princípios de justiça, pelo Estado de Direito e pela cooperação internacional que traga a prosperidade coletiva e não o benefício exclusivo do opressor e seus parceiros no abuso e no crime, em detrimento dos povos do Sul Global.
A análise dos 250 anos de independência dos EUA não nos dá nada a celebrar, mas sim muito a lamentar. A generalizada percepção da melíflua ação dos EUA na seara internacional faz com que o país seja o mais odiado do mundo, em infame parceria com Israel, um de seus Estados clientes. No Brasil, escreveram a respeito das relações bilaterais Brasil e EUA importantes pensadores, como Eduardo Prado: “… a história da política internacional dos EUA não demonstra qualquer benevolência para conosco, pois sua amizade é nula… e sua influência moral perniciosa…”. Também Samuel Pinheiro Guimarães se manifestou nos seguintes termos “…a estratégia política americana procura manter regimes, democráticos ou não, que garantam a liberdade de ação dos interesses americanos…” Para tanto, valem-se consistentemente da “técnica subversiva de favorecer e apoiar, inclusive com armas e recursos… forças contra o governo central que se oponha a interesses americanos…”
Para tanto, vale ainda examinar alguns vereditos históricos a respeito da credibilidade internacional dos EUA:
– “Eles não são confiáveis.” (Cacique Delaware Pachgantschilias, 1787).
– “Os EUA são a única nação no mundo que milagrosamente foi da barbárie à degeneração, sem o intervalo da civilização…” (George Clemenceau).
– “…os EUA pretendem a superioridade militar absoluta… a fim de ditar ao mundo a sua própria vontade…” (Mikhail Gorbatchov).
– “…a história da agressão do imperialismo estadunidense contra a China, desde 1840, até o momento em que foi arrojado do país pelo povo chinês, deveria ser escrita num manual claro e conciso, para a educação da juventude…” (Mao Zedong).
– “…a política geral da agressão imperialista tende a instaurar o neocolonialismo…” (General Vo Nguyen Giap).
– “…a atitude dos EUA é uma ameaça à paz mundial…” (Nelson Mandela).
Durval de Noronha Goyos Junior é jurista, escritor e historiador. Autor de O Regime Internacional dos Direitos Humanos e o Sul Global (Observador Legal Editora) e de As Guerras do Ópio (Observador Legal Editora), é conselheiro da Fundação Maurício Grabois.
Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.