A pandemia dos mentecaptos

Publicado no jornal Diário da Região, São José do Rio Preto, SP, 21 de outubro de 2026.

Segundo a visão de Ariano Suassuna, a literatura seria uma casa de orates. De fato, dentre outras aberrações, ela registra os efeitos cívicos nefastos e deletérios do paroxismo dos movimentos de massa alimentados pelas multidões, sob a condução de guias despreparados, corruptos, ignorantes, inconsequentes, toscos, dementes ou mesmo bestiais.Estas turbas são compostas de mentecaptos de todos os tipos, dentre os quais os tipos denominados idiotas, estúpidos, imbecis e loucos. O enorme número desses faz temer, no mundo como se encontra, seja o literato o único doido a ser encerrado num hospício, como vaticinou Machado de Assis, em ‘O Alienista’. Os efeitos de massa evidentemente diferem dos individuais, mais restritos. Denomino tais catervas como hordas de mentecaptos, do Direito Romano (‘mente captus’ ou mente aprisionada).

Desde a Lei das Doze Tábuas, de 450 a.C., o legislador romano já diferenciava as três primeiras categorias da quarta, que inclui tanto os absolutamente quanto os parcialmente mentecaptos, denominados furiosos (furiosi). Um aforisma latino quantifica os mentecaptos: ‘stultorum infinitum est numerus’, é infinito o número dos tolos. O idiota é o estulto, néscio, parvo, popularmente denominado burro, como por Gil Vicente no ‘Auto de Inês Pereira’. O seu étimo é ídios, do grego, significando particular. O idiota é definido pelo teólogo Igor Sibaldi, em ‘How not to be Stupid’, como aquele cujo raciocínio faz sentido somente para si. O tipo é muito bem descrito por Walter Hugo Mãe, no personagem do Marquês de Malandrinha, em ‘O Século dos Imbecis’. O Marquês “morreu de burro”, vítima de sua preferência em descer a montanha, que o emburrecia, em relação a subi-la, que o esclarecia.

Por sua vez, a estupidez não se confunde com a idiotice. A primeira decorre da ignorância, da inaptidão, da falta de discernimento, a qual segundo Gianrico Carofiglio em ‘Elogio dell’ignoranza e dell’errore’, advém da gélida e arrogante indiferença com relação aos fatos, as evidências, a razão e a competência. Segundo Eco, o estúpido procura demonstrar a sua tese, mediante uma lógica torcida. Por sua vez, o termo imbecil, do latim imbecillis, sem bastão ou desguarnecido, denomina um desamparado da razão. O imbecil é tido por um sociopata, misantropo e/ou insensato.
De fato, Umberto Eco, em ‘O Pêndulo de Foucault’ escreveu que “ser imbecil é mais complexo… ele é mais solicitado…um especulador”, um despropositado frívolo. “A imbecilidade é um comportamento social… o imbecil só comete gafes”. “Em sua forma positiva, o imbecil torna-se um diplomata”, afirmou com admirável perspicácia,circunspecção e parcimônia.

“O louco é reconhecível prontamente…” pois “não se preocupa em ter uma lógica… tem uma ideia fixa e tudo o que encontra lhe serve para confirmá-la”, continua Eco. O louco furioso tem episódios de lucidez, além de espírito de liderança caracterizado pela retórica sofística inverossímil, insensibilidade social, antipatriotismo, e senso de crueldade. O louco furioso, historicamente autocrata, promove a ignorância como meio de controle social, segundo o filósofo inglês Peter Burke, em ‘Ignorance’. Hoje um fascista, ele tenta insanamente conduzir as legiões de mentecaptos rumo ao abismo e oblívio absoluto, aproveitando-se de sua ignorância, passividade e frustração individual ou social, conforme Eco em ‘Il Fascismo Eterno’. Para tanto, faz uso da corrupção, da mentira alardeada, da coerção, além de procedimentos escusos diversos.

DURVAL DE NORONHA GOYOS JR.
Jurista, historiador e escritor polígrafo. Foi presidente da UBE. Da Academia de Letras de Portugal. Escreve
quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras