Publicado no jornal Diário da Região, São José do Rio Preto, SP, 07 de outubro de 2026.
A vassalagem é a completa submissão de um Estado aos interesses econômicos, financeiros, comerciais, políticos e militares de outrem, o suserano. Ela se identifica, de um modo geral, com o conceito de imperialismo, do qual é uma das manifestações, definido por Mahatma Gandhi como o governo de um povo, por outro povo e de acordo com interesses de outro povo. Esta ascendência é normalmente obtida pela fraude à ordem jurídica interna do país vítima, pela corrupção, pela intimidação ou ainda pelo terrorismo de Estado. Por outro lado, embora se identifique com o colonialismo no sentido da cruel exploração de uma nação por terceiros inescrupulosos, com desvio das riquezas do país espoliado e como causador da miséria de seus habitantes, a vassalagem dele se difere na política interna.
De fato, ao invés de uma dominação política, como no infame caso de Israel na Palestina ou das trágicas agressões históricas de Inglaterra, França, Portugal, Espanha, Bélgica, Holanda, Alemanha e Japão aos povos de outros continentes, a administração política interna na vassalagem é delegada a regimes títeres. Estes governos não têm, tipicamente, poderes de formulação das diretrizes econômicas e sociais endógenas, da estrutura de relações exteriores, da formatação da defesa nacional e do perfil de seu comércio exterior. Aos componentes do regime fantoche fica facultada a gestão dos espólios da corrupção, naquilo que não confrontar com os interesses básicos do suserano.
A vassalagem, portanto, configura-se hoje como um fenômeno associado ao imperialismo, desenvolvido pelos EUA a partir do século 19, pelas ações na Ásia, com o tráfico de ópio e manu militari; nas Américas no Brasil, Argentina, México, Cuba, Venezuela, Colômbia e outros; como também na África e no Oriente Médio. Na Europa, após a II Guerra Mundial, a devastadora presença estadunidense, após um hiato parcial ocorrido durante a chamada Guerra Fria, provocou interferências decisivas nos processos democráticos de Itália, Portugal, Espanha, França, Alemanha, Grécia, Iugoslávia, Áustria, Dinamarca etc. Por sua vez, a OTAN, uma organização supranacional militar subordinada aos EUA, desviou recursos europeus para promover os pretensos interesse geopolíticos hegemônicos dos EUA. Da mesma maneira, a União Europeia (UE) passou a atender e a advogar as ambições políticas dos diversos governos estadunidenses.
Ao fazê-lo, os governos dos países membros da UE e da OTAN deixaram de representar os interesses dos seus nacionais, com decréscimo do poder aquisitivo de sua população; concentração de rendas em segmentos das empresas estadunidenses ou aliadas; brutal diminuição nas oportunidades de desenvolvimento pessoal de seus cidadãos; falência do sistema educacional público; aumento do analfabetismo; destruição de seu rico substrato cultural e respectiva substituição pela mediocridade importada e sua instalação, onde existiu a ilustração, o conhecimento; o saber; a arte; a literatura; a música e a gastronomia.
A Europa de hoje, bem como a Argentina, Paraguai e o Peru, dentre outros, abriga os militares estadunidenses e muitas de suas 877 instalações militares no exterior, comprometidas com projetos hegemônicos, propagando a miséria, a destruição do Direito internacional, o genocídio na Palestina e em Cuba, para além da própria civilização. Ali instalados há cerca de um século, tornase a presença dos EUA sempre mais onerosa para o povo europeu. Dos estadunidenses pode-se dizer, como se afirmava com relação a Átila, o Huno, que onde pisam não cresce mais a grama.
DURVAL DE NORONHA GOYOS JR.
Advogado (BR/ING/PT), jurista, professor, historiador e escritor polígrafo. Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feira