Publicado no jornal Diário da Região, São José do Rio Preto, SP, 22 de abril de 2026.
Fernando Pessoa (1888-1935) não foi apenas o mais preeminente poeta lusófono do século 20,
mas também um crítico literário, jornalista e ativista social. Um livro, “Fernando Pessoa – Uma
História da Literatura Portuguesa”, de março deste ano, organizado por Nuno Ribeiro, pela
Penguin, reúne textos esparsos conhecidos ou inéditos, ortônimos ou heterônimos, do escritor
português, os quais trazem luzes sobre o seu trabalho, o seu gênio e muitas manifestações das
suas psicoses. Nuno Ribeiro é um consagrado autor de aproximadamente 30 livros sobre a
obra do Poeta, publicados em 6 países.
A loucura do Poeta, admitida por ele próprio e caracterizada possivelmente por esquizofrenia,
transtorno bipolar, mitomania, dipsomania e escapismo, dentre outros sintomas, talvez
responsável pelo seu gênio literário, não teve o mesmo efeito sobre suas notas críticas,
compiladas no excelente trabalho sob comento. Ao contrário, o material serve para a
recorrente investigação, já feita por Pessoa, de maneira obcecada e frenética, fundada em
Cesare Lombroso, dentre outros, sobre as ligações entre o gênio, a loucura e a degeneração.
Na “História da Literatura”, abundam as contradições, incoerências, paradoxos e
contrassensos da alma do Poeta. Embora amasse a língua portuguesa, os seus textos indicam
também sentimentos despatriotas, juntamente com os nacionalistas. Pessoa compara “Os
Lusíadas”, de Camões, a “Jerusalém Libertada”, de Torquato Tasso e “Orlando Furioso”, de
Ariosto, e a exalta a obra como representativa da grandeza, da heroicidade ou patriotismo
lusitano. Por outro lado, o Poeta considera o escritor Alfredo Pimenta “impenetravelmente
português, e, o que é pior, provincianamente português…” Um “escravo da hipnose do
estrangeiro”.
Para Pessoa, apenas 3 poetas lusitanos do século 19 mereceram o título de “mestre”: Antero
de Quental, Cesário Verde e Camilo Pessanha. Segundo ele, Quental, o melhor deles, foi
mesmo superior aos italianos da época, dentre os quais contam-se Leopardi, Quasimodo,
Pirandello, Ungaretti, Montale e Marinetti, assertiva que causa uma certa perplexidade crítica.
De acordo com o autor de “Minha Pátria é a Língua Portuguesa”, o novo latim seria o inglês
(sic). Vários sentimentos preconceituosos, opiniões ou conceitos de Pessoa indicam paradoxos
pertinentes à maçonaria e ao salazarismo. A sua conhecida posição anticlerical e antagônica à
Igreja, é evidente, como ainda o antissemitismo. Numa crítica (misógina) a um trabalho de
Lutegarda de Caires, o Poeta recomenda “a missão de ser esposa, mãe, cozer a sopa do
marido, escovar-lhe; ver que as criadas limpam bem o pó e que o jantar esteja na mesa a horas
– nisto está a sua poesia”.
Sua obra crítica exprime sentimentos homossexuais e demonstrações de sexualidade
reprimida, a exemplo da aversão ao casamento, por vezes transportadas para terceiros, como
Mário de Sá-Carneiro: “Com característica ingenuidade, mal sabe o autor quanto confessa de
si… Quanto mais sexualmente nos fala, mais sexual se nos revela… Acabamos por ter uma
grande piedade médica por ele”. Sobre Correia de Oliveira, escreveu: “… mostra a intuição
desligada da inteligência e do espírito crítico”. Mas o próprio Pessoa havia escrito, talvez em
autodefesa: “tenho em mim, continuamente, em tudo o quanto escrevo, a exaltação do poeta
e a despersonalização do dramaturgo”. O todo sugere que os seus desassossegos mentais
impulsionaram o gênio lírico e determinaram a modéstia do crítico.
DURVAL DE NORONHA GOYOS JR.
Autor polígrafo. Ex-presidente da União Brasileira de Escritores. Da Academia de Letras de
Portugal. Ex-diretor internacional do Sindicato dos Escritores – SP. Escreve quinzenalmente
neste espaço às quartas-feiras